Resumo do treinamento de Empi (Falco sparverius) fêmea - musculada com a técnica de Lure Fly.

Por Lucas Nunes 

                          

                       

 

 

 

 

 

 

Foto: F. sparverius - foto vencedora do concurso de fotos do III ENF (Roberto Jones)

 

 

     A espécie Falco sparverius tem ganhado bastante espaço na falcoaria brasileira, devido o seu porte pequeno que facilita encontrar bons campos de voo. Porém, ainda é uma ave bastante subestimada quando comparada a outros falcões maiores e considerados mais rápidos. A intenção desse resumo é relatar a minha experiência com uma fêmea de F. sparverius oriundo do criadouro comercial do sr. Leo fukui no rio de janeiro, que foi criada ate as primeiras 16 semanas de vida pelos pais.

 

    Muitos falcoeiros consideram o F. sparverius como um falcão para iniciantes, por ser uma ave de fácil amansamento e versátil, que se adapta a voar em locais bem variados incluindo centros urbanos, porem, qualquer descuido no controle de peso dessa espécie pode ser fatal.

 

    A técnica que venho relatar nesse resumo é o lure -fly, ou isca aérea como é conhecida no Brasil, é bastante utilizada na falcoaria para muscular rapinantes do gênero Falco, dando-lhes a capacidade de perseguir presas por longas distancias melhorando o seu desempenho físico e mental. A técnica consiste em fixar a ave em um objeto (lure/isca) que simulará uma presa fugindo do falcão.

 

 

   

 

 

 

 

 

 

 

 

   

    Quando comecei a técnica de lure-fly com a Empi, baseado nos relatos de outros falcoeiros, a minha errônea intenção era de conseguir realizar entre 25 a 30 passadas, o que já era considerado muito para um Falcão pequeno. Seguindo essa linha de raciocínio muitos iniciantes migram para falcões maiores acreditando que já atingiram o potencial máximo do seu F. sparverius.

 

    No inicio da introdução da Empi ao lure-fly surgiram várias dificuldades, a primeira era manter o falcão no ar depois da primeira passada, pois sempre que a chamava no lure e não entregava de primeira ela continuava voando reto e pousava no chão ou em um poleiro natural, então para conseguir fazer a primeira passada corretamente eu a chamava e quando fazia a passada eu jogava a isca no chão e rapidamente ela retornava para capturar. Então, eu a deixava comer quase toda comida amarrada no lure e fazia a troca encerrando o treino por hora. Esse método foi repetido por dois dias seguidos, depois que já voltava para capturar a isca após a primeira passada, nos partimos em busca da segunda, pois a ave já estava mais confiante. O F. sparverius possui o hábito muito forte de começar a planar sobre a cabeça do falcoeiro, para acabar com esse costume, eu escondia o lure e andava de costas contra o vento, pois isso obrigava a ave a continuar em um voo mais longo. Em seguida girava o lure e fazia outra passada.

 

    No começo, o treinamento de isca aérea não é apenas uma questão de resistência física, mas sim uma questão de condicionamento, pois a ave deve acreditar que conseguira capturara isca, por isso, quando tentei fazer muitas passadas no começo do treinamento, acabei desmotivando a Empi de tal forma no lure que a sua resposta a chamada ao punho por apenas um pequeno petisco era bem maior que a chamada ao lure, que hipoteticamente a levaria a uma grande e farta refeição.

 

   Então comecei tudo novamente, entregando de primeira no ar, realizando as primeiras passadas, e aumentando aos poucos novamente a quantidade. Quando passamos das 10 primeiras passadas percebi que a Empi voava lentamente em direção à isca e não jogava as garras em cada ataque como faz uma ave bem motivada, foi daí que descobri que ela na verdade esperava eu jogar a isca para cima como fazia todos os dias, foi então que comecei a entregar a isca simulando uma passada, eu simplesmente jogava o lure em direção do falcão mais lentamente e ele entendia que foi mais rápido que a presa, então a Empi começou a voar rapidamente em direção da isca e bem motivada, sendo que as vezes ela acertava as garras no lure antes mesmo da entrega e eu jogava a isca no chão e arrastava lentamente, para que fosse entendido que depois da pancada a presa cairia fragilizada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

 

 

    A partir dessa etapa ficou muito mais fácil aumentar o numero de passadas com um falcão totalmente focado a cada tentativa, mas, ainda existiam outros fatores que atrapalhavam bastante o treinamento, quando ventava muito, a Empi não conseguia voltar depois da passada, pois ela fazia uma curva muito aberta para retornar ao lure.

 

  A partir desse ponto que as coisas começaram a ficar mais claras para mim, pois percebi que ao chama-la contra o vento ela fazia a passada e abria as asas aproveitando a corrente de ar para subir cerca de 15 metros do chão,  então planava um pouco no ar e fechava as asas realizando um mergulho em direção do lure, mas eu ainda sem entender direito o movimento, me perdia e não aproveitava, depois que ganhei coordenação motora para tal manobra, comecei a entregar o lure sempre que ela repetia esse mergulho, então ela entendeu que daquela forma economizava mais energia do que remando contra o vento e ainda era mais fácil de capturar o lure, assim aprendeu a utilizar o vento ao seu favor e começou a repetir todas as passadas em U, subindo cada vez mais alto com o tempo.

 

    Já estávamos nessa fase conseguindo efetuar duas series de 30 passadas, mas foi ai que tive problemas com a Empi carregando a comida, pois já que toda vez que ela capturava a isca eu fazia a troca e em seguida repetia o exercício. Eu não queria diminuir a intensidade dos treinos e também não queria que a Empi pousasse antes da entrega, foi dai que além do apito que utilizava para chama-la na isca, eu introduzi mais um comando, dessa vez era a minha voz. Sempre que ela pousava eu gritava e só rodava o lure novamente depois que já estava no ar, então em seguida eu fazia parecer mais fácil capturar a isca quando dava o comando de voz, girando ainda mais lentamente a isca e arrastando no chão, foi então que o número de passadas foi aumentando progressivamente treino após treino, pois cada vez que a ave demostrava cansaço ou ia em direção de um poleiro eu utilizava o comando de voz que antecedia uma resposta positiva, que era a captura da isca aérea, assim, a Empi retornava com mais vigor por saber que logo capturaria sua presa.

 

    A parte do treino mais perigosa para nos dois, eu e a Empi, foi quando fui alertado de um erro muito comum, que percebi depois de um tempo ser cometido por muitos falcoeiros! Eu estava realizando a passada apenas para um lado, o que faz com que a ave possa prever apenas um movimento de fuga da presa em pleno voo. Quando decidi me corrigir e efetuar a passada alternada, a Empi não pode prever o movimento e se chocou no meu rosto com muita velocidade. Além do susto enorme que tomei e ainda sentido a dor da pancada, percebi a Empi quase desmaiada no chão ao meu lado. Em seguida voltou ao normal, mas poderia ter sido fatal para uma ave tão pequena. Por isso aconselho alternar os lados das passadas desde o inicio.

 

   Seguindo uma série de erros e acertos, com a ajuda dos amigos da ANF que me aconselharam sempre que foi preciso, eu e a Empi, conseguimos realizar mais de 100 passadas na isca aérea (lure-fly) sem pousar nenhuma vez, o que não é tão corriqueiro para falcões de pequeno porte. Lembrando que cada ave possui suas particularidades e limitesque devem ser respeitados.

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

 

   Espero que esse relato possa ajudar mais pessoas interessadas em voar pequenos falcões, a explorarem com dedicação e responsabilidade todo o potencial que essas pequenas e eximias predadoras possuem.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Curiosidades: 
 

- Empy ganhou a competição de lure-fly para Falcões no III ENF dando 96 passadas. (veja o vídeo)

- No dia após o feito, Empi bateu seu recorde dando mais de 100 passadas.

 

 

 

Alguns modelos de Lure-fly

Empi - III ENF