AMANSANDO UMA ÁGUIA-CHILENA

 

Ordem: Accipitriformes

Família: Accipitridae

Grupo: Águias

Nome popular: águia-chilena

Outros Nomes: Gavião-pé-de-serra, Gavião-turuna

Nome em inglês: Black-chested buzzard eagle

Tamanho: 68 cm de comprimento

Envergadura: quase 2 metros

Habitat: Campos, borda de matas

Alimentação: Vertebrados

 

Distribuição no Brasil:

 

 

 

 

 

 

 

 

imagem: avederapinabrasil.com

 

 

 

Temidas por seu grande porte e por seus habitos alimentares, as águias assim como outras aves de rapina são incluidas em muitos mitos e principalmente são perseguidas por donos de galinheiros e passarinheiros. Mas as águias também são motivo de admiração e orgulho para muitos, consideradas fortes e  poderosas elas estão em  muitos brasões, bandeiras de países, empresas, moedas e flâmulas de reinos.  Por este motivo a equipe técnica do Centro de Reabilitação de Aves Silvestres (CERAS) entrou em contato com a Associação Nordeste de Falcoaria e Conservação de Aves de Rapinas (ANF) e com a Empresa FALCONTROL S.A para iniciar o treinamento de uma Águia Chilena (Geranoaetus melanoleucus). Este treinamento se dá com técnicas de Falcoaria, e visa o adestramento da ave para introdução em palestras de Educação Ambiental através do Parque Zoobotanico Arruda Câmara (BICA).

 

 

As técnicas utilizadas na Falcoaria tem sido aplicadas para o treinamento de aves de rapina com diversos objetivos e um deles é a Educação Ambiental. Mas é sempre bom lembrar que a Falcoaria é a captura de presas selvagens utilizando aves de rapina.

 

 

PRIMEIROS PASSOS

A ANF entrou em contato com o falcoeiro Alessandro Mac do Espírito Santo, afim de conseguir um capuz para realização do amansamento, o mesmo enviou a foto de um esboço em papel milimetrado (fig. 1), então Dorival Lima através do programa Corel Draw redesenhou, imprimiu o molde e então confeccionou o capuz de modelo Anglo-india, porém ainda faltava testar para saber se ficaria adequado na águia.

 

 

A medida das tornolezeiras (anklets, fig. 2) foram feitas conforme CARVALHO FILHO, et al. 2005 o qual mostrava que o diâmetro do tarso de uma águia-chilena capturada era de 13,5mm e que a anilha utilizada para marcação da mesma, possuía 15mm de diâmetro interno.

 

 

Após uma reunião online entre os falcoeiros Dorival Lima, Eduardson Elias, Alessandra Oliveto residentes em Maceió, AL e os falcoeiros Roberto Citelli e Glenisson Dias residentes em João Pessoa, PB, foi resolvido que a partir do dia 03 de junho a águia deveria ser isolada das demais em um recinto para iniciar o controle de peso. A Águia então foi escolhida pelo médico veterinário R. Citelli e sua equipe do CERAS e em seguida foi avaliada, aferido o peso, condição física e outros fatores que justificaram a escolha da mesma para a atividade de Educação Ambiental.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

 

      Fig. 1 (Molde de capuz Anglo-india) / Fig. 2 (Anklet removível)

 

 

PRIMEIRO DIA

Realizamos a contenção da águia no dia 06 de junho (fig. 3) e em poucos minutos a ave estava equipada. É importante ressaltar que todos os equipamentos foram confeccionados com antecedência (fig. 4).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

    

 

      Fig. 3 (contenção)                                       Fig. 4 (anklets e capuz) 

 

 

 

Escolhemos amansar através da velada, porém não em sua forma tradicional por falta de local disponível.

 

 

Utilizamos o capuz (fig. 5), mas ao contrário do que muitos pensam, o capuz não amansa as rapinas. O que acontece é que durante o uso, mesmo uma ave totalmente selvagem, terá seu maior estímulo anulado, que no caso dos rapinantes é a visão. O capuz, portanto visa atenuar o estresse do amansamento, já que com ele, a ave não se assusta e nem se debate, ao passo que vai perdendo gordura e aumentando sua vontade de se alimentar.

 

 

Devido seu peso e força nas garras "chute", fizemos um rodízio, onde cada falcoeiro passava 1 hora com a ave no punho. Ainda no Zoológico da BICA, Dorival Lima manteve a ave na luva após a retirada do recinto, em seguida passou a águia para Eduardson Elias, então a equipe foi para uma sala isolada onde seria realizado toda velada até que a águia começasse a comer.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   Fig. 5 (encapuzada) 

 

 

 

NA SALA DE AMANSAMENTO

Ao chegar na sala (fig. 6) a águia foi passada para Emerson Nascimento, em seguida Alessandra Oliveto, Luiz Paulo, Glenisson Dias finalizando às 04h10 da manhã, onde então a atrelamos no poleiro ainda encapuzada. Nesse primeiro dia a águia não quis comer, no máximo bicava a coxa de codorna, mas logo sacudia a cabeça para jogar fora os pedaços

 

 

 

 

 

 

 

Fig. 6 (Revezamento entre os falcoeiros)   

 

 

 

SEGUNDO DIA

Todo rodízio recomeçou, fizemos um intervalo e na volta para a Sala de Amansamento, a águia havia conseguido retirar o capuz (fig. 7). Voltamos a  coloca-lá no punho, onde mesmo com cautela, ela se jogou e apertou bastante a luva, até que foi possivél recolocar o capuz e seguir com o amansamento. No segundo dia ela também não se interessou pelo alimento oferecido, muitas vezes bicando-o, mas balançando a cabeça para jogar fora.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fig. 7 (Sem capuz)

 

 

ÚLTIMO DIA

O dia 08 foi o último dia que a equipe da Falcontrol S.A. ficou no Zoológico. Nesse dia escolhemos uma outra sala mais escura, oferecemos mais uma vez alimento, mas dessa vez ela bicou e puxou um pedaço, foi então que resolvemos retirar o capuz; ao retirar, á ave ficou encarando o falcoeiro E. Elias, mas logo que ele ofereceu o alimento, ela puxou alguns pedaços, porém de repente começou a se distrair, olhando para todos os cantos da sala e se jogou da luva, o falcoeiro D. Lima interveio recolocando o capuz e logo ela estava no punho de novo.

 

Esperamos mais alguns minutos até que a águia mais uma vez voltou a comer; retiramos o capuz novamente, mas dessa vez com melhor resultado, pois ela passou a baixar a cabeça para comer e aceitou os toques do falcoeiro em suas patas e dorso. Assim que a ave comeu cerca de 95% da carne da asa de frango, encapuzamos e encerramos atrelando-a.

 

A alimentação se dá da seguinte forma: O falcoeiro oferece um roedeiro (neste caso asa de frango) à ave, e faz movimentos leves tocando-a nas asas, dorso e os pés emitindo um som. A ave vai associar os toques a um reforço positivo por estar se alimentando junto ao Falcoeiro e deste modo percebe que o falcoeiro não é uma ameaça e nem irá disputar por seu alimento.

 

 

MANNING

A equipe do CERAS dará continuidade ao treinamento através do "manning" que se dará de forma gradativa. As aves de rapina são animais extremamente inteligentes e é necessário paciência e conhecimento do falcoeiro/treinador para que a mesma responda positivamente todos os dias e assim com o tempo ela já poderá ser utilizada para Educação Ambiental.

 

Os rapinantes assim como outros animais são importantes no equilíbrio do meio ambiente, pois estes mantêm estáveis as populações das espécies que predam. As rapinas só caçam onde há atividade humana de criação quando o ser humano altera o habitat da mesma ou quando a criação está vulnerável e não mantida da forma correta, por esse motivo é de suma importância a sensibilização através da Educação Ambiental, para conscientizar as pessoas do papel fundamental das aves de rapina no ambiente e que ao predar um animal ela está somente cumprindo seu papel na natureza.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Primeiro dia, todos que participaram direta ou inderatamente de todo processo.

 

 

 

UM RESUMO DE TODO PROCESSO EM VÍDEO:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS

Carvalho Filho, E.P.M., C.E.A. Carvalho, G. Diniz Mendes, and G. Zorzin. 2005. [Anilhamento e Técnicas de Capturas de Falconiformes no Estado de Minas Gerais]. Ornithologia 1:19-24.

 

MENQ, W. (2012) Portal Aves de Rapina Brasil - [Águia-chilena Geranoaetus melanoleucus] Disponível em: < http://www.avesderapinabrasil.com/ > Acesso em: 11 de Junho de 2014

 

 

LINKS

Centro de Reabilitação de Aves Silvestres - Ceras

Parque Zoobotanico Arruda Camara - BICA

Falcontrol Serviços Ambientais

Associação Nordeste de Falcoaria e Conservação de Aves de Rapina - ANF 

 

 

Indivíduo Adulto. Bagé/RS, Fevereiro de 2012.

Foto: José Paulo Dias

Esta foto não representa o indivíduo descrito neste relato.